Carta de um recém chegado

Hoje é dia do Professor e durante muitos anos, pelo menos para mim, foi apenas um dia sem aula. Este é meu primeiro ano lecionando e, no dia que homenageia nossa classe, me pego em meio aos livros, preparando aulas e exercícios para os alunos. Como se o hábito adquirido fosse mais forte. Ser Professor está longe de ser uma profissão, pelo menos ao meu modo de ver, tem que ter o dom para ensinar. Digo isso por mim, pois sou Analista de Sistemas e Programador pela formação acadêmica e por muitos anos no mercado de trabalho prestando consultoria para diversos segmentos. Hoje estou nas salas de aula.

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Pode soar estranho alguém abrir mão de altas remunerações para ganhar 1/5 do valor e ainda ter a responsabilidade de transferir seus conhecimentos a outras pessoas. Alguns poderiam citar uma melhor qualidade de vida, enquanto que outros poderiam fazer isso por uma falta de opção ou até mesmo ter uma renda complementar. Mas eu não vejo desta forma. Quando comecei a admitir a possibilidade de ir para as salas de aula fui influenciado por pessoas que respeito e considero muito. Minha mãe sempre disse que eu seria um bom professor porque consigo explicar qualquer coisa de uma maneira simples para pessoas leigas no assunto mas, convenhamos, mãe é mãe. Meu pai era Professor de matemática e acompanhei sua trajetória lecionando à noite para obter uma renda complementar, pois não havia condições de manter a família apenas com o salário da docência. Minha noiva, uma Mestra em Física pela UFRJ, Professora desde que se formou, apaixonada pelo que faz, independente de salários e benefícios, hoje trabalha em um projeto na Fiocruz e todos os dias sente falta de estar nas salas de aula. Esta tem uma participação grande na minha decisão, pois a alegria e satisfação pelo que ela faz me contagiou e passou a fazer parte dos nossos planos futuros, unindo o lado pessoal e profissional. E também não posso deixar de citar meu amigo, colega de profissão, Doutor e sempre Professor Fábio Lopes que, ao pedir uma orientação sobre eu me dedicar à docência, me escreveu algo que jamais vou esquecer: “Docência é Sacerdócio…” No instante em que li achei graça e me imaginei um “Frei Andrey” envolto de passarinhos, mas se parar para pensar, está coberto de razão! Sacerdócio (do latim sacer , que significa “sagrado” e dos, dotis “dom”). Foi a orientação que faltava para tomar a decisão.

Não é como eu imaginava

Bem, a imagem do Frei envolto pelos passarinhos sumiu no primeiro mês. Nada como estar “no olho do furacão” para saber como tudo realmente funciona. Na minha carreira de consultor sempre fui um profissional linha dura, que bate de frente com quem esteja lesando o bom andamento do projeto ou atuando com segundas intenções. Não poderia ser diferente o Professor. E olha que minha noiva sempre fica me alertando a respeito de ética para com outros professores e que ao terminar o ano letivo, vão-se os alunos e ficam os colegas de docência, mas, aqui entre nós, meu compromisso é com os alunos e minha ética está em atender as expectativas daqueles que me ouvem todos os dias nas salas de aula buscando o conhecimento. Infelizmente são poucos colegas Professores que compartilham este pensamento e se dedicam ao propósito de ensinar e encorajar o aluno. Afinal, se nós, professores, não acreditarmos em nossos alunos, então não acreditamos na nossa própria capacidade de ensinar. Todos nós temos problemas na vida pessoal, financeira e afetiva, mas quando aluno e professor estão na sala de aula, ambos têm os respectivos objetivos em aprender e ensinar. É uma troca, uma sinergia muito positiva e que, ao término de um período, é gratificante ver uma dona de casa resolvendo problemas de lógica. Ver um atendente de padaria programar em Java, ouvir de um aluno militar que isto vai ajudar na sua carreira dentro da Aeronáutica, ver, em cada aluno empenhado, o despertar da paixão por algo que, até alguns meses atrás, era abstrato demais para se admitir. Hoje discutimos empolgados, nos laboratórios da universidade, de programador para programador. Disto eu me orgulho. Aluno apaixonado pelo que aprende, brilha mais.

Mudanças necessárias

O ensino precisa ser melhorado muito ainda. Tudo o que conhecemos requer mudanças que permitam a criança aprender mais conteúdos relevantes mais cedo e em menos tempo. É comprovado que o período de maior capacidade de aprendizagem vai até o 14º ano de vida da criança. Após este período há uma queda na capacidade de assimilação por diversos fatores hormonais e da formação do cérebro. Existem muitas teses a este respeito que não vou tratar neste artigo, mas endossam estas mudanças necessárias na educação. Estas mudanças não tangem apenas a grade curricular, mas também a formação de novos professores com metodologias de ensino mais adequadas ao sistema cognitivo das crianças de hoje. A cada geração, estas crianças aprendem (assimilam) um conteúdo maior de informações, mais cedo e em menos tempo. Sendo assim, nosso sistema de ensino está obsoleto e completamente desinteressante para as novas gerações. Aluno gosta de ser desafiado a aprender coisas novas e, acima de tudo, aprender algo que se justifique na sua vida, seja pessoal ou profissional.

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